25 dezembro 2005

Capitulo 1º





Estava só junto às ondas, numa noite de estrelas.
Nem uma nuvem no céu, nem no mar velas.
Meus olhos viam para além de realidade.
E os bosques, os montes, e toda a natureza,
Pareciam falar num murmúrio de incerteza
Às ondas, à claridade.

ÊSTASE – Victor Hugo










Sorvia o chá quente enrolando as mãos frias em volta do copo colorido de onde se escapava um vapor aromatizado a ervas, relaxante, que confortava e refrescava a alma e aquecia o corpo frio, fustigado incessantemente pela maresia húmida que provinha do mar. Era noite escura, breu cerrado... a lua essa estava em crescente, tímida e pouco luminosa. O som da dinâmica oceânica ouvia-se como o bater de um relógio de pêndulo. Eram as ondas que partiam lá fora, regulares, sincronizadas e certinhas qual relógio suíço. O som que vinha do mar era-me familiar, era-o para qualquer ser como eu. A força poderosa que estava por detrás daquele som significava para mim a mais bela manifestação da natureza e proporcionava-me as mais sublimes sensações alguma vez vividas.
Nesta noite sentia-me bem, o frio diluía-se na aura de calor emanada pela fogueira, o fluido quente e saboroso que corria na minha garganta tonificava-me o corpo, mantendo-me quente e confortável. “Trouxe-o de Marrocos, aquando da minha estadia em Ancre Point!”, murmura-me Cássio enquanto enchia o segundo copo de chá. “Parece que não trouxeste só o chá”, respondo-lhe apontando para os copos, tipicamente marroquinos, de vidro colorido. Verde, azul ou vermelho todos decorados com padrões magrebinos. Ele olha-me por cima dos óculos e a sua expressão era de concordância, mantendo-se concentrado em adoçar o chá com um pacote de açúcar que havia surripiado de um pequeno café onde havíamos parado para comer qualquer coisa, em Porto Covo.

George Steiner dissera um dia que a Europa era feita de cafetarias e pequenos cafés. Que a sua cultura, costumes e vivências tinham como denominador comum esses mesmos cafés. Fernando Pessoa frequentara os cafés de Lisboa, Kierkegard passara por alguns enquanto caminhava nas ruas de Copenhaga. As mais brilhantes mentes europeias, artistas conhecidos ou pensadores indigentes, todos tinham os seus cafés, balcões ou simples tascos, onde fluía o pensamento e criações que moldaram a Europa, ao longo dos tempos. Este era um facto que tentara explicar ao meu novo amigo luso-australiano, quando este me indagara acerca das razões para uma tal proliferação de cafés, pequenas cafetarias e enormes esplanadas por todo o território luso. “Em qualquer grande metrópole, cidade ou vila... lá está mais um café, uma esplanada, por onde quer que passe. As pessoas aqui parecem não conseguir passar sem estes locais”, dissera-me ele tentando fundamentar a sua questão.

Cássio preferia o chá! Continuava calado sorvendo o seu chá quente, enquanto eu absorvia a maresia, deixando as palmas das mãos coladas ao vidro verde do meu copo marroquino.
Cássio não era de grandes conversas. Era notório que se preocupava mais em recolher informação de tudo o que em seu redor se passava. No mar, essa faceta era claramente uma qualidade – nunca vira alguém apanhar ondas como aquele tipo. Em que condições fossem, a sua visão e leitura do mar permitiam-lhe apanhar sempre as melhores. “Poupo energia observando o mar com atenção”, dizia. De facto, eram raras as vezes que uma onda lhe roubava a energia do seu corpo não compensando o seu espírito de igual forma. Não era um tipo sisudo nem demasiado severo, era no entanto um simples indivíduo pouco dado à tagarelice. Australiano de nascimento - o surf corria-lhe nas veias - e português de descendência – o sal era condimento do seu sangue – estava há duas semanas de visita a Portugal, pela primeira vez. Órfão aos 6 anos, nunca tinha tido a oportunidade de conhecer o país da sua mãe, conservando no entanto a língua entretanto esquecida e recentemente reaprendida, depois de alguns meses no Brasil. Viajava há já oito meses de prancha às costas. Era a perfeita imagem do estereótipo do surfista em busca da onda perfeita. “Soul Surfer!!! (risos) Há cada vez mais tipos como tu e eu... que por qualquer vicissitude da vida, resolvem enfiar-se numa jornada de introspecção, escapando a um mundo que de outra forma acabaria com a nossa vida. Lentamente, muito lentamente...”, dizia ele na primeira conversa que tivéramos, quando eu lhe contara a história da minha vida. Eu assentira calado.
Havia pouco mais a dizer deste quarentão, que viajava num forgão VW Transporter de 73 e na companhia de Jacob, o seu velho papagaio.
Continuávamos sentados nas dunas em volta da fogueira, degustando o chá que Cássio havia trazido do Magreb.
“O chá tem a mais elevada qualidade que consigo entender em algo que se beba...”, dizia ele olhando o mar escuro. “Aquece-me a alma e o corpo no Inverno. Refresca-me no Verão. Ainda assim, continua a ser apenas água com o vício do sabor”.
Eu sorri. “Interessante. Nunca tinha pensado nisso...”.
“Sabes o que mais me entristece na história da tua vida?”, pergunta-me ele repentinamente. “É teres apenas 30 anos!!”
Eu entendi o sentido daquelas palavras e continuei a olhar o infinito. “A tragédia não escolhe datas... simplesmente acontece, e quando nos damos conta, a morte afigura-se-nos mais simpática.”, respondi. “A minha aconteceu quando eu tinha 24... a tua quando mal sabias o que era o significado de vida ou de morte.”
“Correcto, mas a tragédia diluiu-se na minha vida como dificilmente a tua se diluirá. Aprendi a viver com isso, aliás... dir-te-ei que moldou aquilo que sou hoje, da forma mais positiva que possas imaginar. Fez-me chegar ao surf! Fez-me crescer mais depressa, ainda que isso não seja totalmente positivo. Eu hoje, apesar de tudo sou feliz. Perdi os meus pais quando era novo, é um facto... mas também é um facto que a minha capacidade para amar era mais limitada. Que a minha noção de vida e de morte não era tão absoluta e dramática como o é hoje para a maioria das pessoas. Senti a morte dos meus pais na saudade, na sua ausência, na falta de carinho e afecto que só eles me poderiam dar. Mas passaram 34 anos, aprendi desde cedo a viver com isso, tornou-se no facto incontornável da minha vida. Uma cena do filme da minha existência. Hoje sou feliz, não só pelas ondas que apanho, pelos países que atravesso, ou pelas mulheres que já tive... mas essencialmente pela vida que levo. Aqui como na Austrália. Esta viagem não é um escape a esse acontecimento, é um escape à monotonia que também pode destruir-nos lentamente. A minha vida, essa sim tornou-se num escape à minha tragédia pessoal. Não acredito que seja agradável perder-se quase tudo em alguns segundos, aos 24 anos, com projectos e sonhos por realizar... a dois”
Concordo acenando de olhos fixos na fogueira.
“Tu queres apenas fugir à mágoa e à solidão”, conclui.
“Solidão... essa compensa-se com as ondas. A mágoa dilui-se no mar, de cada vez que ele me recebe. Quando não tenho ondas, definho... a solidão e a mágoa tomam conta de mim, por isso tenho de viajar, para poder ter sempre um motivo para entrar no mar: as ondas.”
“É a isso que eu me refiro. É precisamente aí que a tua história se diferencia da minha”, diz ele olhando-me complacentemente.
O silêncio voltou a envolver a noite, cortado apenas pelo estalido da madeira a arder e pelo som das ondas que quebravam lá fora...

2 Comments:

Anonymous pedrointhehouse said...

Muito bom... Ainda n tive o tempo de ler muita coisa tua... apesar de tu apresentares o q escreves desta forma tão altruista nos teus blogs... esta história cativou-me... Normalmente, habituados à informação imediata da internet, quando vemos textos mais longos, evitamo-los, mas comecei a lê-lo e fui naturalmente até ao fim...

Espero q encontres a inspiração e a energia certa para construires e conduzires esta história a bom porto.

Abraço Pedro

22:29  
Anonymous Anónimo said...

É verdade, realmente olhei para o texto..."-Ufff,não sei se me vai apetecer.." pá, mas foi na boa, agora venha o segundo e , Cuze, capricha ai sff, aproveita que tou com pica e não deixes a coisa por menos. Escreve ai que eu vou lendo... Abraço,Winter

02:41  

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